9.03.2009

neo-clássico


Estava eu voltando de uma casa que o escritório está reformando, no Panamby, quando fui acometido pelo mal mais comum da cidade de São Paulo: o trânsito. Fiquei parado na Marginal Pinheiros, próximo à ponte que dá início à Av. Bandeirantes, e deparei com um skyline que me fez refletir algumas coisas.

Primeiro, o skyline: à minha direita, o complexo Cidade Jardim, e a minha esquerda, se destacando, o eTower.



Daí vem minha indagação: os acionistas que construíram o eTower, têm dinheiro suficiente para morar no Cidade Jardim (se é que alguns não moram). Por que essa diferença toda de estilo? Apesar do eTower não ser um edifício surpreendente, tem uma linguagem limpa e contemporânea. Já o Cidade Jardim é uma miscelânia confusa de estilos neo-clássicos, que leva a uma sensação de cenário imensa (essa opinião é compartilhada por vários colegas arquitetos, e explico a sensação de cenário depois).

Como que uma pessoa manda executar um prédio com linguagem contemporânea, arrojada, pode morar em um edifício descaracterizado? Ou então, pode mandar construir dois edifícios tão diferentes assim? É só o dinheiro que manda nessas relações (assunto que discutirei em outro post)?

Sou abertamente contra o neo-clássico. Como eu estudei um pouco da Antiguidade e do período clássico na faculdade, e uma das coisas que mais gosto é história, acho uma afronta esse tipo de acabamento que usam nos prédios hoje em dia. Aliás, isso que vemos nos edifícios mais recentes é acabamento, nem linguagem é. Se fosse linguagem, metade dos prédios não poderiam nem ser construídos, tamanha a deturpação do clássico. A única coisa boa que vejo nisso é que conseguimos produzir painéis para fachada com uma boa variação plástica.

Outro ponto que me põe contra o neo-clássico é a pretensa tentativa de parecer culto das pessoas que compram esse produto. Parece uma volta ao clássico que nunca nos pertenceu realmente. É chique, é bonito, é de qualidade. Sendo um pouco mais utópico, se as pessoas realmente compreendessem essa linguagem, o apartamento (ou a casa) deveria refletir do lado dentro o que está exposto fora. Mas não é o que acontece.

Abro um parentêses: fui assistir um concerto para piano e violino na fundação Oscar Americano, no domingo passado.

Ao visitar a casa, agora transformada em museu, com cômodos preservados, percebi essa discrepância externo-interno. O projeto do Bratke (o pai) é um exemplo da linguagem vanguardista da época, o modernismo. Um projeto com linhas simples, modulado, acabamentos brasileiros e uma funcionalidade surpreendente. Mas a decoração interna remete ao século XIX! Tapeçaria, peças de mobília rebuscadas e escuras, coleções e bastante excesso.

Hoje ocorre o contrário. E falo com conhecimento de causa, porque já reformei apartamentos em prédios neo-clássicos. A pessoa compra o apartamento, porque acha chique o estilo cheio de rococó sem sentido. Mas na hora de mexer internamente, quanto mais clean melhor.

Minha teoria do porque essa discrepância entre o edifício comercial e o residencial remota à uma necessidade antiga: a necessidade da habitação.

O lar, a casa, é o espaço onde o ser humano se sente seguro, se desarma do seu arquétipo (go Jung!) e consegue encontrar sua paz. É também o local onde ele vai criar sua família, e esse local tem que trasmitir muita confiança. E remetendo a memória da sociedade, principalmente a brasileira (e por memória eu considero os últimos 200 anos de civilização ocidental), o que parece ser mais seguro e interessante? A arquitetura classicista européia, que é sólida, sofisticada e duradoura. Imagino que, ao verem um edifício neo-clássico, o incosciente deve apresentar esses fatos na cabeça das pessoas, trazendo uma sensação de segurança. E vira um ótimo produto para vender!

Vejo o seguinte: as incorporadoras vendem seu prédio como sofisticados e exclusivos, sem falar das inúmeras facilidades apresentadas (espaço gourmet, piscinas, quadras, home qualquer coisa...), mas na verdade, estão explorando esse lado: a grande duração dos edifícios, e a sensação de segurança física das pessoas (e não estou falando de assaltos e sim de algo mais primordial). Algum cara de marketing pode me corrigir depois. Mas o que eu vejo é isso.

Só que aí, para vender o produto, permite-se essas distorções absurdas na linguagem clássica. Afinal, a galera não estuda muito, o visual vale bem mais (vide aquelas revistas de decoração ou qualquer outra coisa chique, como fotos, que sempre deixam em cima de mesas de centro para decorar. Alguém já leu aquilo de verdade?).

Por isso, já fica o link para meu próximo post. Só com educação, podemos virar a situação.

Mas que eu não me conformo com o neo-clássico, isso não.

pax

Um comentário:

danton disse...

Seu Roi, não sei se entendo bem esse movimento todo contra o néo-clássico que os arquitetos tanto falam mal.
Independente dos motivos que levam as construtoras e seus arquitetos a escolherem esse estilo, a história da arte é feita de olhar para o passado e adaptá-lo ao período atual. Acho a exaltação ao contemporâneo, por si, vazia.
Será que os estilos contemporâneos conseguem satisfazer as pessoas? Será que cabe mesmo ao arquiteto determinar em que estilo de casa as pessoas vão viver?