4.06.2011

a cabana

Criança, eu gostava de viver no meu mundo particular, aonde me protegia em uma pequena cabana, que montava com todo o esforço dos meus 8 anos. Era só afastar a cama, colocar os lençóis presos, e pronto. Aí estava meu refúgio particular, que defendia de exércitos inimigos, escondia dentro de uma selva perigosa, ou mesmo, usava para minhas pesquisas “científicas”. Não raro, minha mãe me encontrava lá, dormindo, e me levava para a cama.

Conforme o tempo ia passando, eu inventava novas formas, novas sofisticações para deixar minha cabana ainda mais resistente e aconchegante. Roubava as almofadas da sala e usava como cama, separava a “cozinha” da “sala e da “despensa”, criava saídas secretas (normalmente, era rastejar por baixo da cama), levava lanternas, bolachas, e acreditava piamente que conseguiria passar uma semana entocado lá.

Não me lembro quando foi a última vez que fiz minha cabana. Provavelmente, eu já deveria estar grande demais para entrar no exíguo espaço que ela oferecia, e eu queria explorar espaços maiores, mais desafiadores. Me escondia pelas garagens do prédio, explorava os jardins (quase sempre levando bronca do zelador do condomínio por estar pisando nas pobres plantinhas que vivam num espaço minúsculo), explorava os andares do prédio subindo e descendo as escadas... . E por fim, abandonei minha cabana, pequena na imensidão do universo novo para explorar.

Mas como desejo voltar para a cabana! Fico imaginando, hoje, me espremendo no mesmo espaço que eu ficava confortavelmente há tempos atrás, só para poder reviver o meu universo particular. Ter o lugar para correr quando o mundo adulto desaba (e sim, ele desaba, com uma facilidade incrível, que não percebemos quando criança), me esconder, me proteger, me preparar para a nova batalha do dia a dia.

E, se fosse hoje, o que eu levaria comigo? Provavelmente, quase nada. Deixaria todas as máscaras do mundo adulto do lado de fora, e junto com elas, alguns pensamentos perversos que as vezes circundam minha cabeça. Deixaria entrar a compaixão, a honestidade, a bondade que está dentro de mim, e encontraria lá um lugar seguro para viver com merecemos, e não como o mundo nos pede.

Levaria também a pessoa que compartilhará meu mundo, mesclando com o dela. Deixaria até ela fazer algumas pequenas mudanças, trazer algo seu, para acrescer ao meu universo. E criaremos um novo mundo, mágico, onde partilharemos nossos melhores sorrisos, nossos amores sinceros, e lidaremos com nossos medos. E quando sairmos de lá, aprenderemos a levar nossa pequena cabana no coração, para guardar nela tudo o que há de melhor em nós, e mais ainda, para podermos convidar mais pessoas a conviver dentro da cabana, e, por fim, transformá-la em nosso mundo.

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