4.25.2011

começou, não pára.

há lugares aonde ficamos indignados. Há lugares aonde são esquecidos. Há lugares aonde não há dignidade. Há lugares aonde tudo que se tem é o nada, e do nada se tira tudo. Há lugares que são sujos e feios. Há lugares aonde se existe, e não vive.
E há de se aprender, que nesses lugares, há felicidade e esperança. Nesses lugares, lições de vida ocorrem dia a dia, na luta para manter-se existindo. Vida, amor, e até mesmo paz, também coexistem nesses lugares.
Esses lugares, ninguém olha. Têm medo. Medo de ver o que permitimos existir. Não queremos entrar em contato, pois nosso preconceito traz dor. A realidade dói nos olhos. Como pode existir um lugar desses?
Faço um apelo: entremos nesse lugares. Vamos estender a mão. Oferecer, porque a gente pode. A maior mudança ocorrerá em você mesmo. Porque lá, aprenderemos o verdadeiro sentido da compaixão, da entrega, da felicidade. Lá há felicidade. E isso, eles sabem partilhar melhor que nós. Aliás, não existe isso de nós e eles. Somos todos, somos um, somos tudo. Se você quer conforto, dê conforto. Se você quer dignidade, ofereça a alguém. Se você quer amor, ame alguém. Se você quer paz, dê a paz para alguém. Deixe de ser você, e seja o outro.

No final, será a mesma coisa.

4.18.2011

difícil

Sou humano, e isso torna difícil
É difícil ver o que não será
Difícil terminar antes de começar
É difícil chorar

Difícil foi perceber
E responder a dor
Sem perecer
Somente com atos de amor

Sou simples, e é difícil
Ver o mesmo caminho ser trilhado
O mesmo sofrimento ser criado
E ter que ficar calado

É díficil saber que poderia ser mais
É difícil se abrir
E se machucar
E não fechar

É difícil evitar
De ainda sonhar
De esperar
E voltar a caminhar

4.11.2011

aonde fica?

alguém me diz
Aonde está a coragem
O medo apoderou-se
Nada ficou

Porque não acredito em mim
Digo que posso mais?
Só penso no pior do fim
Só penso, outra vez, jamais

Ser o que sou
Mais do que restou
Errar e continuar

Saber que vou acertar
Que vou continuar a tentar
E do medo, ganhar.

Não sei se sabes

Tu me irritas

Por fazer-me pensar em ti

Mais do que eu deveria

Não sei se sabes

Seu tempo não é o meu

E me deixa ansioso

Por um beijo seu

Creio que sabes

E o fazes, por querer

Provar-te-ei

Que mereço tal prazer

Não sei sabes

Tu me exaspera

Me deixa na espera

Com esperanças sinceras

Quero que saibas

Que quero que me queira

Que me queira como te quero

Que vivamos um só querer

4.06.2011

interesso-me

Não me interessa
Se você não gostar
Se você me falar
Que não podemos continuar

Não me interessa
Seus motivos
Suas excusas
Seus traumas

Não me interessa
Meus medos
Minhas convicções
Meus desejos

Não me interessa
Seu retorno
Seu amor
Seus gostos

Me interessa
A epifania criada
A certeza desejada
A vontade do coração

Me interessa
Seu olhar de surpresa
O tímido momento
Contentamento

Sei que sorrirá
Sorriso que pode até cessar
Talvez ele escapará
Talvez ele exista só na alma

Me interessa
Saborear sem pressa
A felicidade alheia
Ao resto, não me interessa.

a cabana

Criança, eu gostava de viver no meu mundo particular, aonde me protegia em uma pequena cabana, que montava com todo o esforço dos meus 8 anos. Era só afastar a cama, colocar os lençóis presos, e pronto. Aí estava meu refúgio particular, que defendia de exércitos inimigos, escondia dentro de uma selva perigosa, ou mesmo, usava para minhas pesquisas “científicas”. Não raro, minha mãe me encontrava lá, dormindo, e me levava para a cama.

Conforme o tempo ia passando, eu inventava novas formas, novas sofisticações para deixar minha cabana ainda mais resistente e aconchegante. Roubava as almofadas da sala e usava como cama, separava a “cozinha” da “sala e da “despensa”, criava saídas secretas (normalmente, era rastejar por baixo da cama), levava lanternas, bolachas, e acreditava piamente que conseguiria passar uma semana entocado lá.

Não me lembro quando foi a última vez que fiz minha cabana. Provavelmente, eu já deveria estar grande demais para entrar no exíguo espaço que ela oferecia, e eu queria explorar espaços maiores, mais desafiadores. Me escondia pelas garagens do prédio, explorava os jardins (quase sempre levando bronca do zelador do condomínio por estar pisando nas pobres plantinhas que vivam num espaço minúsculo), explorava os andares do prédio subindo e descendo as escadas... . E por fim, abandonei minha cabana, pequena na imensidão do universo novo para explorar.

Mas como desejo voltar para a cabana! Fico imaginando, hoje, me espremendo no mesmo espaço que eu ficava confortavelmente há tempos atrás, só para poder reviver o meu universo particular. Ter o lugar para correr quando o mundo adulto desaba (e sim, ele desaba, com uma facilidade incrível, que não percebemos quando criança), me esconder, me proteger, me preparar para a nova batalha do dia a dia.

E, se fosse hoje, o que eu levaria comigo? Provavelmente, quase nada. Deixaria todas as máscaras do mundo adulto do lado de fora, e junto com elas, alguns pensamentos perversos que as vezes circundam minha cabeça. Deixaria entrar a compaixão, a honestidade, a bondade que está dentro de mim, e encontraria lá um lugar seguro para viver com merecemos, e não como o mundo nos pede.

Levaria também a pessoa que compartilhará meu mundo, mesclando com o dela. Deixaria até ela fazer algumas pequenas mudanças, trazer algo seu, para acrescer ao meu universo. E criaremos um novo mundo, mágico, onde partilharemos nossos melhores sorrisos, nossos amores sinceros, e lidaremos com nossos medos. E quando sairmos de lá, aprenderemos a levar nossa pequena cabana no coração, para guardar nela tudo o que há de melhor em nós, e mais ainda, para podermos convidar mais pessoas a conviver dentro da cabana, e, por fim, transformá-la em nosso mundo.

4.01.2011

mais do mesmo

No meio da mesmice
Há que se prosseguir
Cercado da calmaria
Há que se remar

E, tolos, não sabem
O motivo de minha revolta
Ficam atolados em si
Parados em volta

Palavras já não me bastam
Abraços já não convencem
Cumprimentos no vazio
Busco o silêncio

Pego a força renovada
Que há de emergir de mim
Nova estória a contar
Ou o fim.