Antes era
gota. Orgulhosa, teimosa, insistente. Mas era somente uma gota. Depois veio
outra, num momento distraído. Gota mais saudosa, sozinha, pesada, determinada
em cair. A elas se juntou uma terceira. A terceira trouxe a quarta em seguida,
quase como se fossem uma só. O pensamento pesou, os sentimentos confundiram-se,
mas o orgulho estava lá.
As quatros
gotas acabaram por formar um riacho. Frágil, quase invisível, mas insistente.
Queriam virar rio, cair em uma cachoeira, seguir em um lago e se misturar.
Tanto forcaram que viraram rio. E o rio desaguou. Virou correnteza, trazendo
consigo tudo que um rio caudaloso traz. Turbulento, intenso, arrebatador.
Misturou meu orgulho com dor e saudade, e me fez lembrar do que quis esquecer.
O rio,
buscando seu caminho para o mar, inundou o que encontrou pelo caminho. Chegou
em um lago gigante, que banha um local diferente, que cria estórias estranhas e
aniquila sonhos. A gota, que era riacho, rio e lago, virou motivo. Uniu-se com
outras gotas, que insistem em cair daqueles que sabem que erram. Que esperam o
passado, Que desejam voltar. Que enxergam sua própria solidão.
A gota me
convidou a mergulhar no lago.
Talvez eu já
tenha mergulhado e nem sabia.