3.30.2011

o caminho

Eu nunca havia reparado. Sempre percorri esse caminho, mas nunca havia reparado. Esse percurso, onde já passei com pressa, pensando na próxima reunião, no próximo projeto, pendurado em uma ligação, tentando resolver problemas de outrem. Já fiz o caminho inverso, devagar, carregando minhas culpas, meus problemas, indo de volta ao descanso, por vezes choroso até, ou então esperançoso por algo que estava por vir.

O caminho em si, sempre foi o mesmo. A sorte de morar em um bairro arborizado me fez percorrer um espaço protegido por árvores e, conforme o tempo foi passando, sentindo-me um pouco oprimido, por muros cada vez mais altos, forçando-me a uma individualidade, a uma solidão que eu nem mesmo percebia que adentrava em mim. E para ignorar isso, me punha a ouvir alguma música pelos ouvidos, completando, assim, meu total isolamento com o pedaço de rua recebia meus passos.

Lembro-me que comecei a percorrer esse caminho muito jovem, com meu pai, para ir à escola. Ele caminhava comigo todas as manhãs, inclusive nos dias chuvosos, que íamos brincando de desviar das poças d’água, para nós dois evitarmos uma bronca de minha mãe quando chegássemos em casa, e ela percebesse minhas meias e minhas roupas molhadas. O caminho, que demorava uns 15 minutos, se transformavam para mim em 15 minutos de perguntas intermináveis sobre o céu, o ar, o mar, e até a pequena plantinha que teimava em nascer pela rachadura do asfalto. E ele respondia, sorrindo, inventando soluções mirabolantes apenas para agradar um menino de 8 anos.

Depois, o caminho me levava ao clube onde somos sócios. Logicamente não era o mesmo, mas o início dele é no mesmo começo, que percorro até hoje. Afinal, o início é sempre o mesmo para todos, não importando para onde iremos. Ainda tinha a companhia de meu pai, protetor, contra a imensa avenida que cruzava nosso caminho. Íamos felizes, as vezes nós dois, as vezes com minha irmã e com minha mãe, percorrendo para um destino que invariavelmente nos traria um pouco de alegria e diversão, no clube, que era uma pequena extensão de nossa casa.

Quando entrei no colegial, comecei a percorrer o caminho para escola sozinho. A sensação de independência era fantástica. De repente, eu era o dono da rua e da calçada. Um caminho quase secreto, ensinado para mim pelo meu pai, no qual continha uma magia que meus olhos hoje já não podem explicar, porém, o coração sempre sentiu. Apostava corrida comigo mesmo, brincava de atravessar as calçadas só pelo prazer de descobrir o que havia na outra margem, criava estórias, contava casos. Tudo isso nos 15 minutos que se passavam.

Um dia, percorri o caminho com meu pai, mas voltei sozinho. Algo tinha acontecido. Algo que eu tinha certeza, em toda minha insegurança de adolescente, que nada mais seria o mesmo. Nesse dia, demorei o dobro do tempo para voltar. O caminho parecia sombrio, escuro, apesar do sol e da sombra acolhedora das árvores, que permitiam que fachos de luz passassem, para me iluminar. Finalizada a caminhada, meu medo se realizou. Meu pai saíra de casa, e não retornaria mais.

Nos primeiros meses que se passaram, evitei o caminho. Preferia ir pela avenida barulhenta e apertada, um reflexo de como eu estava. Olhava somente para o chão, para o asfalto preto, sem sentimentos, duro, tedioso. Via os carros passando em alta velocidade, sem destino, sem parar para apreciar o perfume que exalava dos canteiros. Na época, eu queria ser um carro. Para ir rápido e sem destino, somente correr, e sumir do meu próprio horizonte.

Mas não resisti, e voltei ao meu caminho. O segredo do caminho havia sumido, era só mais um caminho. Foi quando eu comecei a enfiar músicas pelos ouvidos. Em um dos cruzamentos, havia um cadeirante, vendedor de balas, que sempre me cumprimentava e sorria. Eu, educado para ser polido, o cumprimentava de volta, mas sem expressão. E todo dia, isso se repetia, mas eu estava absorto em meus problemas e mágoas, e o cumprimentava mecanicamente. E voltava a focar na música, numa forma de não permtir uma conversa posterior.

Me acostumei com o caminho. Ele me levava, eu o percorria, e nossa relação ficou fria. Mas a magia estava escondida em algum lugar, querendo aparecer de novo, esperando o meu retorno. Nesse costume, o percorri com grandes amores, sozinho, em direção ao meu futuro, percorrendo meu passado, e também em direção nenhuma, somente pensando, tentando digerir tudo o que acontecera comigo.

Hoje eu percebi. O caminho, que agora se tornou o percurso de uma pessoa nascendo para a vida adulta, que corre em direção ao trabalho, ao dinheiro, aos problemas, aos sonhos. Eu o percorri hoje, e encontrei o vendedor de balas, que parece que me persegue há quase 10 anos. De novo, ele me cumprimentou e sorriu. E eu, o cumprimentei. Mas, sem querer, escapou um sorriso meu de volta. E ele sorriu mais ainda. Imediatamente, a magia voltou.

Reconheci naquele sorriso toda a história do caminho que me carrega. Comecei a torcer para o sinal abrir, e eu poder atravessar o quanto antes e continuar minha caminhada. Não queria demonstrar para aquele humilde vendedor de balas que o turbilhão de emoções guardado em mim começou a jorrar pelos meus olhos. E a partir daí, cada flor, cada pedaço de calçada, grama e asfalto voltaram a falar comigo, como se o menino de 8 anos estivesse passando ali, e não o homem ocupado. Aquele sorriso, insistente por quase dez anos, estava ali para me lembrar de sorrir também. Me fez lembrar do sorriso de meu pai, e da forma como eu dava risada com as histórias sem sentido que ele me contava. E, junto com o jorro dos meus olhos, comecei a rir, e gargalhar. Cheguei ao meu destino mais leve, e profundamente agradecido pelo vendedor de balas, que com um simples sorriso, insistiu para eu que eu voltasse a sorrir.

Acho que amanhã irei comprar uma bala.

3 comentários:

Anônimo disse...

comprou?

roi disse...

comprei.

maristela disse...

Fuck... beautiful, dear! E corajoso. Sua mãe já leu?
Poderia chamar de "o difícil resgate de um sorrisso, o difícil resgate de mim". Love you lots, dear nephew.